Uso de “ê/éli/e” como conjunto genérico.

Aliel Aliel on Jul 29, 2026 · 6 min read ·  Open post in medium.com

Por muito tempo eu utilizava o conjunto de linguagem ê/elu/e como genérico. Isto é, o conjunto utilizado quando:

Há um guia de linguagem neutra universal em orientando.org que fala exatamente sobre isso: o que é e para que serve a linguagem genérica. Colocarei nas referências.

Pelo que encontrei na internet, o neopronome “elu” começou a ser difundido por volta do ano 2014. Não se sabe quem, de fato, o criou, mas apenas que, não surpreendentemente, foi popularizado em movimentos não-binários.

Embora seja, sem sombra de dúvidas, um dos neopronomes mais populares e icônicos, tenho notado algumas problemáticas em relação a ele. Acho que o principal obstáculo do uso dele é que não há uma concordância global em relação à sua pronúncia. Enquanto o guia de linguagem neutra de Ophelia Cassiano sugira que sua pronúncia seja “êlu” ou “élu”, a escrita do pronome sem nenhum acento pode dar a sugestão de que a pronúncia seja oxítona (ou seja, “e-lú”), justamente por conta de uma regra de acentuação da língua portuguesa.

Consigo pensar em argumentos contra e a favor para pronunciar “elu” de uma forma ou de outra:

  1. A pronúncia “elu” deve ser “e-lú” pois a neolinguagem, embora seja uma “nova linguagem”, deve continuar seguindo a regra de acentuação da língua portuguesa, uma vez que suas palavras são usadas dentro da língua portuguesa;
  2. Como a neolinguagem é uma “nova linguagem”, não há porque haver uma preocupação em seguir regras de pronúncia ou acentuação, logo está tudo bem não pronunciar como “e-lú”;
  3. As pronúncias “êlu” e “élu” devem ser priorizadas pois os dois pronomes singulares retos de terceira pessoa (“ela” e “ele”) são paroxítonos (isto é, têm a ênfase na penúltima sílaba);
  4. Não se deveria focar nos pronomes normativos “ela” e “ele” para determinar a razão da pronúncia da sílaba tônica de neopronomes. Um neopronome genérico não deve necessariamente se adaptar ao que é “confortável” dentro da língua normativa.

Esses, entre muitos outros, são argumentos que vira e mexe podem aparecer quando você discute sobre a utilização do neopronome “elu”. Há não muitos dias atrás eu não via problema em pronunciar “elu” meio que da “forma que eu quisesse”, exatamente porque os argumentos que existem eram bem convincentes para mim tanto contra quanto a favor da pronúncia dele, então, nunca cheguei ao ponto de verdadeiramente me importar com isso.

Até que ze Aster, umé amigué minhé, ajudou-me a esclarecer algo fundamental que não havia pensado antes: pronunciar “elu” da maneira “que eu quiser” reforça uma cultura de pronunciá-lo de determinada maneira que pode acabar prejudicando usuáries do pronome “elu” mas com a pronúncia oxítona, ou seja, a pronúncia gramaticalmente adequada (onde o acento agudo em “u” torna-se redundante portanto), ao terem que ficar “se explicando” para garantir que não sejam maldenominades com “élu” ou “êlu” por exemplo.

Por esses e outros motivos que durante muitos dias estive pensando em uma alternativa para o neopronome “elu” como genérico. Durante esses dias, vi uma postagem di Oltiel, outri amigui minhi, em colorid.es, que, por motivos provavelmente semelhantes aos meus, começou a adotar outro pronome como genérico: “éli”. É sobre isso que pretendo falar neste texto.

Eu utilizo o neopronome “éli” já faz quase um ano, e o conheci através dé Aster, embora i Oltiel o utilize com mais prioridade e tenha sido quem, de fato, me fez sentir mais familiarizade com o uso dele, isto é, me sentir não sendo alguém “fora da curva” por reivindicá-lo (não que ser “fora da curva” seja um problema, mas às vezes se sentir “dentro da curva” é uma sensação boa). Acho importante ressaltar, no entanto, que não o utilizo com objetivo de ser um pronome “neutro”, mas sim como ferramenta de expressão de gênero, e meu gênero acontece de não ser neutro, uma vez que sou ume libragênero quoigênero.

Este texto, no entanto, é sobre o seu uso como linguagem genérica, não como linguagem pessoal. Já aviso logo de cara que ele é fortemente inspirado em um texto de Oltiel que fala sobre neolinguagem e o conjunto genérico ê/elu/e que até então, como eu, éli utilizava.

Primeiramente, gostaria de esclarecer por quê acredito que “éli” seja uma melhor alternativa para neopronome genérico em relação a “elu”. Há várias razões (ressalto que muitas são apenas minhas opiniões):

  1. A pronúncia de “éli” é uma só pois é o único som na língua portuguesa que a letra “é” faz com acento agudo, e a palavra será sempre paroxítona também pela presença do acento agudo;
  2. O fato desse neopronome ser necessariamente paroxítono, em minha opinião, torna uma comunicação mais clara, uma vez que pessoas que nem o conhecem, embora possam estranhá-lo ao ouvir pela primeira vez, podem entender de cara que se trata de um pronome reto da terceira pessoa;
  3. A semelhança com es sons e pronúncias populares de “ela” e “ele”, quase como se fosse um híbrido dos dois, pode também ser uma vantagem na sua compreensão e difusão;
  4. A presença do acento agudo não é apenas estética: ela está de acordo com uma regra de acentuação da língua portuguesa que afirma que paroxítonas terminadas em -i devem ser acentuadas e, assim como dito no item 1, também esclarece evidencia a pronúncia;
  5. A exata mesma regra acima também aplica-se a palavras terminadas em -u, e, por muita gente, não é levada em consideração em “elu”. Penso que neopronomes genéricos, embora obviamente subvertam a língua normativa, para que possam ser popularmente conhecidos, devam ter suas pronúncia e escrita coerentes com as regras normativas vigentes (até porque são as mesmas que dizem que a letra “i” se pronuncia como “i”, por exemplo…)

Agora sim, a seguir, trago minha proposta do uso do conjunto “ê/éli/e” como genérico. Vou separar em algumas seções para que fique bem claro.

Artigo, pronome e flexão: notem que eu não utilizei algo como “éli/déli” para expressar o conjunto de linguagem proposto. O modelo “ê/éli/e” significa três coisas:

“ê” é o artigo definido;
“éli” é o pronome reto;
“-e” é a flexão de gênero.

Artigo: Usar “ê” como artigo definido significa que, ao invés de usar a/o (como na língua normativa) na frente, digamos, de um substantivo relacionado a tal conjunto de linguagem, utiliza-se “ê”. Por exemplo: “Ê brasileire médie ganha um salário mínimo.”

Pronome: O uso de “éli” como pronome reto quer dizer que no lugar de ela/ele (da língua normativa), utiliza-se “éli” com gente tal que você está aplicando tal conjunto de linguagem.

Por exemplo: “Éli foi à festa.”

Flexão: O uso de “-e” como flexão significa que, na maioria* das palavras que flexionam com -a/-o de acordo com o gênero gramatical normativo, utiliza-se “-e” no lugar, sempre que a palavra concordar com pessoas tais que você está aplicando tal conjunto de linguagem.

Por exemplo: “bonite” ao invés de “bonita” ou “bonito”.

*Existem muitas (muitas mesmo!) exceções para essa regra “básica”. Sugiro consultar o artigo de Oltiel, lá éli explica direitinho a maioria das exceções comuns. A propósito, penso em aplicar, nessa proposta, boa parte das flexões que ael mesmy aponta como sugestões lá.

Apenas artigo definido, pronome reto e flexão não explicam tudo o que um conjunto de linguagem permite expressar. A seguir os elementos que eu proponho para serem acompanhados do uso de “ê/éli/e” como genérico.

Artigo indefinido: ume.

Exemplo: “Éli é ume boe amigue.”

Pronomes demonstrativos: ésti, éssi, aquéli.

Exemplo: “Ê primeire que eu vi foi aquéli ali.”

Pronomes possessivos: minhe, tue, sue.

Exemplo: “Ésti é ê minhe melhor amigue!”

Contrações: Penso em usar “dê” como contração da preposição “de” com o artigo definido “ê”. Embora “dê” já seja uma conjugação do verbo “dar”, esse é um uso até que bem diferente e penso não causar confusão, uma vez que muitas palavras da língua portuguesa são homógrafas e acho que nunca vi ninguém se queixar disso.

Há também quem prefira utilizar apenas “de” mesmo, concordando com a flexão “-e”. Não acho inválido mas, pessoalmente, prefiro uma palavra que difira de “de”, pois há algumas situações que acho minimamente interessante fazer uma diferenciação entre o uso de “de” apenas como preposição e como contração com o artigo definido.

No entanto, no plural, penso em usar “des” mesmo (em que “dis” é a pronúncia átona, assim como “dus” é a pronúncia átona de “dos”), da mesma forma como i Oltiel, em seu artigo Neolinguagem, no conjunto genérico usa o artigo “ê” mas usa “es” como plural. A propósito, penso em aplicar isso também aqui.

Agora, com outras contrações com preposições, penso em apenas aplicar a flexão mesmo. Por exemplo: pre, pele, ae, ne.

Plurais: Interessante como eu quase não comentei muito sobre os plurais né (que geralmente são as ocasiões em que a linguagem genérica é mais utilizada kakaka). Mas é porque, nesse conjunto de linguagem, eles são bem intuitivos: basta adicionar a letra “s” no final. Fim de papo. É sério, e esse é outro motivo pelo qual esse conjunto pode ser viável para futura popularização e difusão.

Exemplo: “Éssis são minhes amigues, élis são umes dives.”

A única exceção para essa regra eu já comentei, mas reforço aqui: ao invés de “ês” ou “dês”, remove-se o acento circunflexo, permitindo a pronúncia átona das palavras, escrevendo-se “es” e “des” respectivamente.

Por fim, ressalvo que esse texto não é, de forma alguma, uma “imposição” de como utilizar linguagem genérica “corretamente”. Isso não existe e, sendo bem honeste, acho que nunca vai existir. Mas isso não impede de que propostas como essa sejam bem pensadas, construídas e compartilhadas.

Fontes (as três primeiras são leituras sugeridas!):

  1. https://bloguealternative.wordpress.com/neolinguagem/
  2. https://orientando.org/guia-de-linguagem-neutra-universal/
  3. https://amplifi.casa/~/Asterismos/artigo-pronome-final-de-palavra
  4. https://www.linguaportuguesa.blog.br/post/oxitonas-terminadas-em-u
  5. https://colorid.es/@Aster/102102788512378801
  6. https://www.scribd.com/document/622130691/Guia-Para-Linguagem-Neutra-PT-BR-by-Ophelia-Cassiano-Linguagem-Neutra-PT-BR-Medium